Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida como outra coisa qualquer
como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso
como este ribeiro manso em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam
como estas árvores que gritam em bebedeiras de azul
eles não sabem que sonho
é vinho, é espuma, é fermento
bichinho alacre e sedento de focinho pontiagudo
que fuça através de tudo em perpétuo movimento
Eles não sabem que o sonho
é tela é cor é pincel base, fuste, capitel
que é retorta de alquimista
mapa do mundo distante
Rosa dos Ventos Infante caravela quinhentista que é cabo da Boa-Esperança
Ouro, canela, marfim florete de espadachim bastidor,
passo de dança Columbina e Arlequim
passarola voadora pára-raios, locomotiva barco de proa festiva alto-forno, geradora
cisão do átomo, rada rultra-som, televisão desembarque em foguetão na superfície lunar
Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança
Manuel Freire - Pedra Filosofal
terça-feira, 24 de abril de 2007
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